terça-feira, 7 de agosto de 2012

Lembrança de morrer

" Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
  Que o espírito enlaça à dor vivente,
  Não derramem por mim nem uma lágrima
                  Em pálpebra demente.

  E nem desfolhem na matéria impura.
  A flor do vale que adormece ao vento
  Não quero que uma nota de alegria
  Se cale por meu triste passamento.

  Eu deixo a vida como deixa o tédio
  Do deserto, o poente caminheiro
  - Como as horas de um longo pesadelo
  Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

  Como o desterro de minh'alma errante,
  Onde fogo insensato a consumia:
  Só levo uma saudade - é desses tempos
  Que amorosa ilusão embelecia.

  Só levo uma saudade - e dessas sombras
  Que eu sentia velar nas noites minhas...
  De ti, ó minha mãe! Pobre coitada
  Que por minha tristeza te definhas!

  De meu pai... de meus únicos amigos,
  Poucos - bem poucos - e que não zombavam
  Quando, em noites de febre endoidecido,
  Minhas pálidas crenças duvidavam.

  Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
  Se um suspiro nos seios treme ainda,
  É pela virgem que sonhei... que nunca
  Aos lábios me encostou a face linda!

  Só tu à mocidade sonhadora
  Do pálido poeta deste flores...
  Se viveu, foi por ti! e de esperança
  De na vida gozar de teus amores.

  Beijarei a verdade santa e nua,
  Verei cristalizar-se o sonho amigo...
  Ó minha virgem dos errantes sonhos,
  Filha do céu, eu vou amar contigo!

  Descansem o meu leito solitário
  Na floresta dos homens esquecida,
  À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
  - Foi poeta - Sonhou - e amou na vida -

  Sombras do vale, noites da montanha,
  Que minh'alma cantou e amava tanto,
  Projetei o meu corpo abandonado,
  E no silêncio derramai-lhe canto!

  Mas quando preludia ave d'alvorada
  E quando à meia noite o céu repousa,
  Arvoredos do bosque, abri os ramos...
  Deixai a lua prantear-me a lousa! "



















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